Não, não se trata do clássico tratado do
sociólogo Gilberto Freyre. Mas podia ser. No Big Brother Brasil, não é de hoje
que a gente presencia casos de racismo, explícito ou não, estrutural ou não. E
o Big Brother Brasil nada mais é do que uma célula representativa de todo o
país. Nesta edição, percebe-se claramente o patriarcalismo na arquitetura da casa do BBB. Aparentemente, há quem se julgue ali dono de tudo; ou, pelo menos, há uma elite que assinou as escrituras de posse da mansão global. Antes, vamos entender um pouco da dinâmica que foi estabelecida no jogo.
No
BBB 20, temos a divisão entre a Xepa e o VIP. Na área externa da casa se encontra
a Xepa, onde há uma quantidade mais limitada de alimentos, o que eventualmente gera
discussões mais acaloradas no que diz respeito ao racionamento e ao
aproveitamento. Já os VIPs desfrutam de maior conforto dentro da casa. Os VIPs são escolhidos pelo líder.
Já
há algum tempo, Babu não figura entre os VIPs. Ele já chegou a desabafar, no
início do reality, que não se sentia à vontade entre eles (e mais adiante no texto a razão será explicitada). Desde então, ele não sai
mais da Xepa. E a cozinha da Xepa é comandada pelo Babu, que se mostra muito
perfeccionista e zeloso no preparo das refeições e na limpeza do ambiente.
Por
outro lado, temos o “grupão”, formado pelos VIPs. Marcela, Pyong e cia passam
boa parte do tempo lucubrando sobre o jogo. Sob a batuta do coreano-brasileiro,
altas estratégias são desenhadas. Felipe Prior e Babu estão sempre na mira
deles. Até aí, ok, faz parte do game. No entanto, algumas falas bem desagradáveis, e até racistas, têm sido disparadas pelos afortunados do momento. A Dra. Marcela, que
no começo do reality despontou como a “fada sensata” e líder feminista,
desandou ladeira abaixo desde que engatou um romance com o imaturo e
destrambelhado Daniel. Suas convicções foram se diluindo, pouco a pouco, dando
lugar a um tom absolutista e segregador. No seu embalo está Manu Gavassi, que
optou declaradamente pelo anti-jogo como estratégia. Rafa, Ivy e advogada
Gizelly não ficam muito atrás, e esse quarteto, tendo Jaime como dedicado
pastor e Daniel como bobo da corte, tem se revelado menos militante do que
demonstrava ser.
Babu,
em um diálogo com seu parceiro de jogo Felipe Prior, esclareceu o significado
de militar: não é segregar, mas sim, agregar. O militante que não sabe agregar não
está lutando ou não está sabendo lutar pela causa a que se propôs. Uma causa
carece de vozes, vozes cada vez mais altas, mais potentes. Precisa agregar
força e combater o bom combate. Babu se referia, na verdade, às mulheres
(sobretudo o quarteto supracitado) que se dispuseram como feministas desde o
confronto com Hadson e sua trupe. A mulherada se agarrou a uma tábua da
salvação, aos “mandamentos” feministas, e se esqueceram de que na sociedade
existem outras trocentas pautas relevantes e que estão sendo menosprezadas na
casa. Afinal, quando Manu ou Marcela incorrem em falas ou atos que denotam
racismo estrutural ou gordofobia, Babu se torna uma voz abafada na casa.
Thelma, apesar do lugar de fala para se opor, ainda evita indisposições com seu
grupo de afinidade. Os machistas deixaram o programa, um a um; Prior,
assumidamente machista, ainda continua devido ao seu carisma e à teimosia em
tirá-lo a todo custo, o que acaba o fortalecendo; quanto aos assediadores, bem,
esses nem todos foram punidos com a eliminação... enfim, e quanto a quem dispara
uma fala preconceituosa ou racista? O que acontece com essa pessoa?
Quando
Gizelly diz que tem medo de comer o arroz do Babu porque pode estar “macumbado”,
todos riem. Daniel cantarola uma música de cunho racista, ele é ingênuo, todos
silenciam. Quando Manu diz que esteticamente Daniel e Marcela são extremamente
agradáveis, Marcela sorri. Quando Daniel diz que a imagem de Babu está mais
ligada à Xepa e que não consegue enxergá-lo no ambiente VIP, todos acham graça.
E a Marcela faz um adendo: ele até poderia limpar a cozinha deles, mas que no fundo, não estava merecendo. Se quisesse comer bem, que
saísse do programa. Curiosamente, Marcela descarta Thelma de seu pódio (eram ela, Thelma e Gizelly - o trio parada dura do começo do programa), dando lugar a Daniel e Ivy. Diante dessas colocações e posicionamentos, entendemos, finalmente, a tecla que
Babu tanto bate: isso é segregação.
Segregar não só
pessoas, mas pautas. É estabelecer o que realmente importa, e o resto é resto.
Nessa edição, somente o feminismo importa. Antes que me acusem de qualquer
coisa, eu sou pró-feminismo. A causa feminista importa e SEMPRE vai carecer de
ser debatida. Mas... só essa causa importa? Quando Babu fala da gordofobia, a
Manu revira os olhos em deboche. Quando Babu diz que Marcela olha para ele como
sua patroa, há quem diga que é coisa da cabeça dele. Babu é o jogador mais
representativo da edição no que diz respeito à divisão simbólica que há nesta
casa: Xepa e VIP. Babu entrou como VIP, como “Camarote”, por ser ator. E o que
ele é hoje aos olhos dos VIPs? Um homem indigno de estar presente na “casa
grande”. Mesmo que ele rejeite estar lá, a questão não é essa: é como os demais
julgam sua condição como jogador e como homem. Não é exagero fazer analogia ao
período da escravatura. Não é mesmo. Babu não se isolou porque quis. Ele
simplesmente percebeu esse movimento exclusivista e se deslocou de maneira
natural. Foi “acolhido” pelos “brucutus”, como ele mesmo os apelidou. Os
brucutus também estavam isolados, por outras razões, e ali houve uma
aproximação conveniente em termos de jogo. O caráter paternal de Babu abraçou
os brucutus e naquele meio, apesar de não ser o cenário ideal, Babu enxergou
uma possibilidade de desenvolver seu jogo, expandir suas pautas, ser escutado e
contra-atacar aqueles que o jogaram para escanteio. Seu jeito reativo promove muitos
conflitos, sobretudo na cozinha da Xepa; porém, claramente se percebe que é uma
reação. Babu reage emocionalmente ao que o magoou no começo do jogo e continua
magoando. Não é o biscoito, tampouco o feijão: quando Babu explode, explode
toda uma história, toda uma cultura, o sangue, a classe social, o calar que é imposto,
o segregar, o ignorar.
Espero sinceramente que
o público tenha aprendido com o erro que foi eleger Paula como vencedora do BBB19.
Que em 2020, a voz de trovão de Babu não só ecoe, mas faça chover.



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